Nunca é demais insistir em que nem tudo o que está na Bíblia pode ser interpretado em sentido literal. Exemplo clássico, se assim podemos dizer, é a criação do Universo tal como a narra o 1º. capítulo do Gênesis: os seis dias ali referidos não são seis fases ou etapas de 24 horas. O que importa é a mensagem religiosa (todas as coisas foram criadas por Deus), e não o aspecto científico da questão (o como essa criação se processou mediante leis naturais evoluti-vas).
Em Ef 6,1-3, o apóstolo Paulo repete o que está em Ex 20,12, e em Dt 5,16. Confessamos ter tido, desde logo, a intuição de que “a terra” de que ali se fala é a pátria celestial, e não o planeta Terra que habitamos. Acontece que nem em livros de co-mentários bíblicos nem nas notas de rodapé de diversas edições da Bíblia encontramos qualquer explicação para o sentido, no caso, da palavra terra. Mas o termo se acha também numa das bem-aventuranças proclamadas por Jesus no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt 5,5). Ora, parece-nos evidente que, ainda aqui, a interpretação ao pé da letra seria inaceitável: Jesus não iria prometer a ninguém, como prêmio por sua mansidão, tornar-se proprietário, dono, possuidor do nosso mundo. E, desta feita, nos deparamos, felizmente, com abalizados comentários.
Com efeito, na Bíblia Sagrada anotada pela Faculdade de Teologia de Navarra, lemos a seguinte explicação sobre o significado da palavra terra na referida bem-aventurança: “A terra: Comumente entende-se em sentido transcendente, quer dizer, a pátria celestial” (cf. 1º. vol., Edições Theológica, Braga, 1985, p. 157).
É também a interpretação de George Chevrot, sacerdote francês, autor de excelentes obras de espiritualidade: “A terra, que a segunda bem aventurança promete aos mansos, é certamente a ‘nova terra’ anunciada por Isaías (66,22), aquela que a segunda epístola de São Pedro nos manda esperar depois do advento glorioso de Jesus Cristo, no fim dos tempos” (O Sermão da Montanha, Quadrante, S. Paulo, 1988, p. 68).
Assim, pois, o que o mandamento do Senhor, chamado à colação por são Paulo em Ef 6,3, está a nos dizer é que, reverenciando nossos pais, teremos “longa vida” – tão longa, que não terminará nunca – na “nova terra”, a pátria celestial.
Outra ou outras interpretações serão possíveis? Talvez. Jamais, porém, a literal, pois a recompensa que Deus nos promete pela prática dos seus mandamentos não é, pelo menos em primeiro plano, a felicidade em nossa efêmera passagem pelo mundo, mas a eterna bem-aventurança do Reino dos Céus.