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Uma amiga evangélica me disse que a Bíblia proíbe que se façam imagens, e mandou que eu conferisse no livro do Deuteronômio 4,16. Me pareceu que ela tem razão. Gostaria que vocês me explicassem.
Anônimo
Transcrevamos o texto bíblico referido na consulta: “Guardai-vos, pois, de fabricar alguma imagem esculpida, representando o que quer que seja, figura de homem ou de mulher” (Deut 4,16).
Pois bem: a essa passagem do Deuteronômio vamos contrapor outra, esta ago-ra do livro do Êxodo, na qual se lêem as instruções dadas pelo Senhor a Moisés para a construção da Arca da Aliança:
Farás dois querubins de ouro; e os farás de ouro batido nas duas extremidades da tampa, um de um lado e o outro do outro. [...] Terão esses querubins suas asas estendidas para o alto, e protegerão com elas a tampa, sobre a qual terão a face inclinada. [...] Ali virei ter contigo, e é de cima da tampa, do meio dos querubins que estão sobre a arca da aliança que te darei todas as minhas ordens para os israelitas (Ex 25, 18.20.22).
E, agora, em que ficamos? No primeiro texto (o do Deuteronômio), Deus parece proibir a feitura de imagens. Já no segundo (o do Êxodo), expressamente determina que sejam confeccionados dois querubins de ouro, e até afirma que ele, o Senhor, se interporá entre essas duas esculturas para, do meio delas, transmitir aos israelitas as suas prescrições! Aliás, outras passagens bíblicas poderiam ser colacionadas, seja num sentido (suposta proibição de imagens, como em Ex 20,4), seja no sentido oposto (autorização, ou mesmo ordem, para que sejam fabricadas (como em Num 21,7-9).
Ora, Deus não pode se contradizer. É preciso, então, buscar a correta interpretação de suas palavras. Pois bem: O que Deus proíbe é que se façam imagens para adorá-las. Expliquemos. Os povos primitivos supunham que nas imagens estava a própria divindade, isto é, que Deus estava nelas encarnado. Por isso, faziam esculturas, pinturas, quadros e os adoravam. Eram idólatras, isto é, adoradores de ídolos (ídolo é "estátua ou simples objeto cultuado como Deus", diz o dicionário do Aurélio). O que Deus proíbe é isto: "Maldito o homem que fabrica ídolo de madeira ou metal" (Deut 27,15), quer dizer, que cultua como Deus, como se fosse Deus, um pedaço de madeira ou de metal.
Nós, católicos, apenas veneramos imagens (o que é muito diferente de as adorarmos), vendo nelas somente a representação do Espírito Santo, de Jesus, de Maria, dos santos, dos anjos. Tais imagens nos ajudam a elevar a eles a nossa mente. Não pensamos que Jesus, Maria, os santos, os anjos estejam ali. Por isso, numa igreja ou capela em que não haja sacrário, mas só imagens, não podemos fazer genuflexão, porque esta é sinal de adoração. Genuflexão só se faz diante do sacrário, porque na hóstia consagrada, sim, cremos que Jesus está realmente presente, e a ele, que é Deus, deve-se o culto da adoração. Enfim: olhamos para as imagens dos santos da mesma maneira que o fazemos para os retratos de nossos pais, de nossos filhos, de nossos parentes, às vezes já falecidos, os quais freqüentemente colocamos em bonitos porta-retratos em nossas casas.
Veneramos as imagens dos santos da mesma maneira que se cultuam as estátuas, monumentos e bustos de homens ilustres (Tiradentes, Getúlio Vargas, d. João...) que estão nas praças públicas. Em determinadas datas, sobretudo nas dos aniversários de morte dessas personalidades, é costume nelas se depositarem flores, fazerem-se discursos, prorromper-se em aclamações, sem que isso signifique, é claro, que pensamos estarem tais personalidades ali presentes e sem que estejamos pretendendo adorá-las.
Uma última observação: se lermos bem atentamente os textos da Bíblica citados no caso pelos nossos irmãos protestantes e os interpretarmos como eles o fazem, acabaremos por concluir que proibida está não apenas a fabricação de imagens sagradas, mas também toda e qualquer escultura, pinturas, quadros, desenhos. E talvez até mesmo a fotografia, quem sabe?
Lessa
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